Halloween | Festival de Samhain

Em comemoração a este dia tão especial para os Celtas, compartilho um capítulo do meu livro inspirado nesta data!

Dublin • Irlanda  • 31 de outubro, 2012.

Dia de Todos Insanos

      Faz umas duas semanas que levo sustos andando pelas ruas de Dublin. Não passaria ilesa nos resultados de um eletrocardiograma. Casas cobertas de teias de aranha; luzes e gritos acionados pelo movimento; bruxas, zumbis, esqueletos e fantasmas pelos jardins; caveiras e aracnídeos gigantes espalhados pelas paredes e pelos cantos. Eu sei, é tudo fictício. Mas até o cérebro distinguir entre o real e o imaginário, meu coração já acelerou e saiu correndo sem olhar para trás.

     Até mês passado o caminho para a escola era de admiração e deslumbre. Agora, é tremelique.

     Não fazia ideia que esse negócio de Halloween era tão celebrado aqui. Lá na casa dos meus pais era sinônimo de assistir filmes de terror com os meus primos até de madrugada, comendo brigadeiro de colher. Até o dia em que um cara bateu na porta, lá pelas três da manhã, e nós, sem noção alguma, abrimos.

     Morávamos numa casa de madeira, de esquina, naturalmente assustadora. Morria de medo de ficar sozinha, porque além de ouvir barulhos da madeira rangendo, a nossa casa era arrombada pelo menos uma vez por mês. Até o filhote de vira-lata que adotamos, roubaram. Depois de um mês do acontecido, devolveram o nosso cachorrinho dentro de uma caixa de sapatos deixada na porta da frente, morto. Sim, crueldade pura.

     Nesta noite em que bateram na porta e nós respondemos, meus pais estavam trabalhando fora, tinham uma formatura da academia de dança deles. Não havia nenhum carro na garagem. Todas as luzes desligadas e nós assistindo filme. Foi uma gritaria só! Lembro que o meu primo mais velho decidiu responder ao cara, que “queria saber se tínhamos um leite para doar”, para mostrar que tinha gente em casa. Tinha gente — quatro crianças. Esse meu primo, pelo tamanho, até enganava na idade, mas o malandro do leite nunca ficou sabendo disso. Provavelmente foi bater na casa do vizinho.

      Eu nem lembrava o quanto essa história tinha me marcado, até andar pelas ruas aqui, nesse frio nublado e penumbre, igual às cenas dos filmes que assistíamos. Mas, diferente de mim, o pessoal daqui parece amar esta data.

     Na aula de hoje de manhã, o nosso professor não trouxe doces nem veio fantasiado, mas nos presenteou com algo muito mais interessante — a história do Halloween. Segundo ele, a origem deste dia se deu há mais de dois mil anos, quando celebravam o final das colheitas e o começo do inverno. Era a virada de ano no calendário celta, que começava no dia 1 de novembro, e por isso, a comemoração no dia 31 de outubro.

      Eles acreditavam que nesta noite, em especial, abria-se um portal entre este mundo e o submundo, em que os fantasmas conseguiam passar para o lado de cá, trazendo informações e previsões sobre o futuro. As pessoas se reuniam fantasiadas com cabeças e peles de animais, que eram também sacrificados como presentes aos deuses, e liam o futuro uns dos outros. Já as crianças preparavam doces para oferecer aos espíritos considerados maus, como forma de proteção.

      Este festival celta era chamado de Samhain, e pela importância que tinha em toda a região, a igreja católica encontrou um jeito de incorporar esta celebração ao calendário cristão, como forma de diminuir a influência pagã na cultura local. Mudaram a data do Dia de Todos os Santos, do 13 de maio para 1 de novembro, e passaram a chamar a véspera de All Hallows Eve [a véspera de Todos os Santos, tradução livre], que com o tempo se tornou Halloween.

      O olhar dele brilhava ao nos contar um pouco sobre a história dos seus ancestrais. Ele, que estava perto dos seus setenta anos, achava graça das nossas caras juvenis de surpresa. Também pudera, passei vinte e cinco anos achando que era só uma festa sinônimo de doces ou brincadeiras. Um carnaval estadunidense, talvez.

      Na volta da escola, o caminho para casa trouxe de novo a admiração. Gosto da ideia de aprender algo novo, todo dia. Também acho uma graça nos surpreendermos tanto assim com o que é fora do nosso normal. Eu, por exemplo, levei uma semana para reprogramar minha cabeça antes de entrar no banheiro, pois é necessário ligar a luz do lado de fora aqui em Dublin. Cada banho é praticamente uma prova de amizade. Preciso confiar que ninguém que mora comigo vai passar pelo corredor e desligar o interruptor sem ter percebido que me deixou tomando uma ducha no escuro. Saio do banheiro limpa e grata.

      O reservatório de água leva de quinze a trinta minutos para aquecer e não tem chuveiro elétrico. O melhor dia para lavar roupas é no domingo, pois o valor da luz cobrado é extremamente reduzido nesse dia. Zanzando pelas ruas de pubs e cafés, reparo o que mais é diferente e que ainda não vi. Os cardápios para fora dos estabelecimentos sempre me chamam atenção. Gosto de tentar entender os pratos do dia, buscar receitas e depois fazer em casa.

     Café da manhã: mingau de aveia (salgado?) ou feijão com tomate, levemente adocicado, linguiças, ovos fritos, bacon, tomate assado e hash brown — Ah! É aquela panqueca frita, feita com batata ralada.

    Almoço: salada ou sanduíche — o que não me surpreende, depois de terem tomado um café da manhã tão reforçado. 
 
    Janta: ensopado de carne de batatas e lamb — o que é lamb mesmo? Porco? Não, não, é cordeiro! Lamb é cordeiro.

    Um dia fui tomar café com uns amigos irlandeses que quase tiveram um treco quando pedi um sanduíche. Sanduíche no café da manhã? Com ovos? Não, não, não. Pode parar. Dizem por aí que toda vez que um estrangeiro pede isso no balcão, mata um irlandês de desgosto. Prefiro mudar de assunto quando me perguntam se é verdade que brasileiros tomam até três banhos por dia. Já assustei irlandeses demais com o meu pão com ovo de manhã.

     Falando em espanto, comecei o dia decidida a ficar no meu quarto comendo brigadeiro e assistindo um filme, para manter a tradição do dia das bruxas. Mas depois dessa aula, sem chances! Eu quero é ir para a rua com e comemorar o Halloween no melhor estilo irlandês do século XXI: com as amigas, fantasiada e bêbada. Há que se respeitar a ancestralidade de um povo que, em sua mitologia, homenageava o deus fabricante de cerveja. 

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